| | Quinta-feira, Fevereiro 21j | |
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Venho por meio desta informar-lhes de forma inesperada, inequívoca e inexorável que a partir desta data este blog está declarado encerrado. Vocês poderâo deliciar-se ou horrorizar-se com o conteúdo antigo, solicitar que ele volte ou que eu o tire do ar ou ainda ler o novo blog que está por vir. Por mim tanto faz. |
| | Terça-feira, Fevereiro 19j | |
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A arte como simulação
Segue a seguir dois poemas compostos por mim em uma quinta-feira à noite, na beira da estrada para Beira-rio, numa encruzilhada em que discos voadores ameaçavam as redondezas com... Na verdade são apenas dois textos que escrevi um dia desses antes instalar a internet aqui em casa. Deliciem-se com Surrealismo e Dúvida. Pode ser, até, que eles se complementem. Mas eu não garanto nada.
O Surrealismo não é surreal.
O surrealismo é o super-real, o sobrereal.
Mostrar mais da realidade do que nós, em condições normais, poderíamos perceber.
Tirar o desfoque, equalizar o som, mostrar em câmera lenta.
É Pieter Bruegel... ... e é Matrix.
Há música surreal?
O cinema é surreal. Uma arte surreal.
O Surrealismo é a reconstrução do real. A dúvida, destrói a realidade. A pergunta a reconstrói. E a resposta, a faz nascer de novo.
O Surrealismo é um ideal. Nascido da dúvida, projetado como pergunta.
A razão é uma crença. Que só se sustenta por si mesma.
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A pergunta e a resposta nunca se complementam. Elas se anulam.
A pergunta não é o inverso da resposta.
A pergunta é uma coisa. A resposta é outra.
Não há causa e efeito.
Aliás.
Há.
A pergunta é efeito da dúvida, a causa.
E a resposta é efeito da crença, que é uma dúvida. E uma causa.
Pode ser que não.
Mas vai saber! |
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O que a razão não entende a
imaginação cria.
A imaginação cria o que a razão não entende
A razão entende o que a imaginação não cria
A razão da imaginação é crer no que não se entende
E a razão da razão é crer no que se entende.
A imaginação não entende o que a imaginação cria
E não cria o que a imaginação entende.
O que a razão entende
A imaginação não cria. |
| | Quinta-feira, Outubro 25j | |
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¯[red hot chili peppers - can't stop]
Justiça Cega
Me perdoem os politicamente corretos. Ou não perdoem. Danem-se. Mas tenho esboçado um sorriso de satisfação com a nova onda de notícias que tem ganhado destaque na mídia nacional. Um policial à paisana fuzilou dois assaltantes numa lanhouse no Rio. Seguranças humilhando pichadores de Curitiba. E outras traquinagens mais. O quê, deveria eu ficar assustado com o excesso de violência desses seguranças que sequer deveriam portar armas? Eu não. O cara que levou chumbo não tava fazendo ginástica e nem tava lendo um livro. O vagabundo tava pichando muro.
É um excesso da Lei de Talião. Vá lá. Mas é justiça feita pelas próprias mãos. Tenho medo que motivado por isso muita gente saia por aí atirando em qualquer mané que lhe fechar no trânsito. Mas não me preocupo se um assaltante morrer vítima do próprio crime. Nunca confiei nesse sistema penitencinário que transforma um pichador num assassino. Um usuário de droga em sequestrador. Um moleque vagabundo desses, que sai à noite para pichar os muros da cidade, provavelmente cairia em uma casa de detenção - se não lhe salvassem a pele com serviço comunitário hipócrita - estagiando com criminosos escolados. Talvez participasse de uma rebelião. Talvez fosse estuprado. Talvez apanhasse como um cão e matasse ou morresse. No final, a única certeza é que ele sairia pior do que entrou.
Este sistema correcional é uma merda, mesmo. Ele não serve para corrigir nada. Afinal, pichou, tá pichado. Não sai mais. Matou, tá matado. E por aí vai. Vai ressuscitar o morto se o fulano ficar vinte anos preso por um crime hediondo? Não, não vai. O sistema serve para evitar a reincidência. E que remédio mais eficaz para isso do que matar quem matou? Por isso não acho que um pichador deva morrer pela infração. Mas também acho idiotice pichar a casa dele, como rezaria o "olho por olho, dente por dente". Faz o seguinte, leva num galpão e pinta ele com a própria tinta. Tira sarro, esculacha. E vê depois se o cara vai se arriscar novamente a sair por aí pintando o nome no muro dos outros.
¯[red hot chili peppers - otherside]
A minha intuição masculina me diz que se um puto desses morreu na mão de seguranças malucos daquela forma, ele não foi o primeiro. E pelas notícias que andam pipocando, não vai ser o último. O azar é que esse pichador de bosta era filho de um figurão. E pior, um figurão da mídia. A mesma mídia que logo se apressou em exibir o nome da empresa a torto e a direito (e que talvez, até o dia em que eu postar este texto, já vai ter falido). A mídia que agora trata o crime do segurança como uma tragédia nacional e o crime do pixador como uma atividade inocente. Aliás, daqui a pouco a morte do sujeito vai se tornar tão mítica quanto a morte de Tiradentes. Um mártir. Um olho atento pode perceber que sequer uma vez ele foi chamado de "pichador". Sequer uma vez fizeram uma reportagem falando do problema da pichação e da depredação dos bens públicos. Afinal, foi puro azar ele ter cruzado o caminho dos seguranças malucos?
Me preocupa que os seguranças tenham chegado ao absurdo de tirar uma vida por tão pouco. Deveriam ter ficado na humilhação do galpão. Mas nunca se sabe o que um maluco é capaz com uma arma na mão. Porém isso é um pormenor, um problema pontual. Os problemas verdadeiros, na verdade, são causa e consequência dessas notícias. As causas, como eu já havia apontado ali acima, foi o crime do idiota e a arma na mão do retardado. Daí pelo azar do idiota ser filho de um figura da mídia, o circo foi armado.
O que me deixa consternado é a reação das pessoas frente a essas notícias. Muita gente que vive garganteando justiça justa (isso não é uma redundância) agora esbugalha os olhos de horror quando houve falar da história. É fácil balançar o dedo e dizer "isso é errado" de fora da situação. Fazer o quê, confiar na polícia? No sistema correcional? Ou talvez no amor da família? O que é que vai corrigir um idiota desses? Aliás, quantos idiotas há desse tipo para serem corrigidos? E quantos idiotas dispostos a cometer um crime surgem a cada dia neste país?
Esse é o tipo de problema em que eu ficaria muito satisfeito em não me importar. Não fazer uma pergunta e nem sequer buscar uma resposta. Mas quando o cheiro da merda chega na minha janela, é impossível não se incomodar. Cogita-se que muitos justiceiros têm surgido desde o fenômeno Tropa de Elite decididos a resolver sumariamente a maioria dos problemas da sociedade. Sou a favor de uma solução sumária. Mas não sou a favor de que essa solução seja criada por cada um que tiver uma arma na mão. Isso é anarquia. E anarquia é uma merda.
¯[sepultura & korn - blinded] |
| | Quarta-feira, Outubro 17j | |
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Alfredo Sem Medo: Parte Dois
Embriagado pelo intenso chacoalhar do Colombo-CIC, Alfredo meditava a respeito de seu maior inimigo: a morosidade do sistema público de ensino. No início da primavera, Alfredo - ou O Mago, como gosta de ser reconhecido - havia defendido o seu projeto de estudos frente à banca de sábios anciãos do CEFET. Um projeto que previa revolucionar o mundo da tecnologia mecatrônica.
O Mago agora precisava arrecadar investidores para o projeto da sua vida, enquanto aguardava a decisão solene do sábio Conselho. Primeiramente uma oferenda a Odin. No sábado, o primeiro dia da lua nova, O Mago sacrificou as cartas do Chihuahua, do Pipoqueiro e do Gaiteiro, três de seus grandes aliados nas batalhas semanais com os nerds, digo, os guerreiros de RPG no Diretório de Física da UFPR. Agora ele pretendia, em sua fúria incontrolável, derramar mais do sangue virgem.
Esquizofrênico precoce, Alfredo tem em O Mago o seu mais recente título, motivo de chacota e humilhação no prédio em que vive. Certa vez, quando era Ælfred, fraturou o nariz em defesa da honra. Era o período de entresafra da cevada, cujo suco é mui apreciado em Asgard, o mundo de ilusões de Alfredo. Ele acompanhava uma refeição com alguns conhecidos do seu curso de Mecatrônica, dos quais nenhum deles até aquele momento tolerava insinuações de amizade por parte de Alfredo. Pediu o saboroso X-Montanha, com cinco quilos de gordura e o resto de pêlos do saco e outras imundícies que o cozinheiro chinês decidisse adicionar. Aguardava o sanduíche em meio à névoa do óleo que fritava bolotas de carne há mil anos e apreciava o conforto dos bancos ergonômicos que caiam aos pedaços, quando não deixou de notar o absurdo tamanho dos peitos da Samanta. Esta era a cigana que, de alguma forma, sempre aparecia a Alfredo - ou Ælfred, nesta época - quando este entupia-se de comprimidos entorpecentes.
Iludido pelos seios magistrais, Ælfred mergulhou em profundo estupor, sem dar-se consciência de que contemplava uma mulher de verdade, que realmente chamava-se Samanta e que era malabarista de silaneiro. Ælfred desfez-se de sua mala de lona verde com bordado "Mecatrônica" e escritos incoerentes com corretivo e caneta azul em todos os espaços disponíveis. Ælfred, absorto, desfez-se de sua pochete com carteado completo apto a derrotar qualquer oponente arrogante que lhe cruzasse o caminho. Ælfred também desfez-se de seu sanduíche, uma vez que um sujeito saiu rapidamente de uma penumbra e o abocanhou tão logo o dono partiu hipnotizado em direção aos dois montes de carne macilenta e perfumada de Samanta. E, finalmente, Ælfred desfez-se naquele momento de um nariz naturalmente grande e espinhento para um nariz dobrado e estranhamente deformado para o resto de sua vida.
O que aconteceu, de fato, nem o narrador nem o personagem sabem ao certo. Um breve flash recorda uma bofetada que partiu a cara de Ælfred pela metade. Num outro relance do passado, o personagem encontrava-se fora de uma taberna medieval em um cinzento dia chuvoso de outono em algum lugar ao norte da Escócia discutindo calorosamente com um bravo guerreiro das Terras Nórdicas a respeito de algumas cabras da propriedade do seu Senhor. O guerreiro franzia-lhe a testa com tamanha tenacidade e cuspia com tamanha força as palavras, temperadas com seu mau hálito medieval, que Gandalfredo - que era como Ælfred estava sendo chamado pelo guerreiro - chegou a pensar em dispensar-lhe uma breve demonstração dos poderes sobrenaturais de seu cajado mágico. Ao invés disso Ælfred despertou de seu delírio.
Estava agora em frente a um grande muro, que sugeria uma fábrica abandonada. Atordoado com a novidade, Alfredo lembrou-se que costumava esquecer das coisas. O que era realmente um alívio, pois muitas vezes ele esquecia de lembrar-se de que costumava esquecer-se das coisas. Caminhou vagarosamente ao contorno do muro, apreciando os fios de luz que perfuravam as árvores. Alfredo entreteu-se por alguns segundos imaginando como essas árvores pareciam guerreiros medievais. E antes que ele sequer percebesse os estranhos musgos que lhes invadiam as armaduras de madeira, Alfredo esqueceu-se aonde é que estava, pois passou a ouvir vozes celestiais.
- Você o conhece?
- Quem?
- Eu... infelizmente eu o conheço - vacilou uma terceira voz.
Silêncio. O mundo ficou branco. Alfredo sentiu uma breve vontade de defecar quando tempo depois (três minutos, cinco horas, vinte dias? Ele havia perdido a noção do tempo) novas vozes retumbaram.
- Macacos me mordam, Morgan!
- Não vai ter jeito, ele é feio como o diabo, deixa assim.
- Oh, doutor salve a vida do meu bebê!
Logo o quê, Alfredo despertou com dois seios minúsculos perto dos olhos. Fez um muxoxo e deduziu pela proximidade da coisa que seu nariz havia encurtado. Grudado no bolso do jaleco branco que encobria o seio esquerdo, Alfredo leu "Enfermeira Morgan". E logo que a Enfermeira Morgan sentiu que o paciente lhe babava nos peitos, apressou-se em sedá-lo novamente. Todas estas recordações trouxeram lágrimas aos olhos de Alfredo, que percebeu rictos de asco e sarcasmo nos outros passageiros do ônibus. O ônibus que continuava a chacoalhar insistentemente. E chacoalhava cada vez mais à medida que avançava pelas terras inóspitas de Colombo, ao mesmo tempo que o desespero assomava à cabeça de Alfredo, pois que percebia que já tinha ido ao CIC e que voltava agora para o outro extremo do trajeto. Alfredo calculava que esteve disperso por... talvez duas horas em digressões existencialistas.
O chacoalhar incessante balançava-lhe a comida no estômago e os bagos na cueca. Um mal estar invadia-lhe os intestinos e então brotou a revelação, clara como um raio de luz, de que o trabalho intestinal enfeitiçara-lhe as lembranças passadas. Cansado de lutar contra a sua natureza, O Mago libertou-se das amarras sociais. Abriu mão dos bons costumes e cagou em torrentes bestiais. Um rebosteio potente como um furacão transbordou por todas as janelas. Passageiros gritavam por suas vidas. Luzes de emergência piscavam freneticamente enquanto sirenes berravam o alerta da morte. A merda sufocava a todos e parecia que o mundo inteiro sofreria as consequências de uma diarréia tão furiosa.
Mais tarde, o único sobrevivente da catástrofe contemplava exausto a devastação do ônibus nas terras ermas de Colombo. A partir deste dia, este sobrevivente de nariz dobrado passaria a se chamar Alfredo, O Sem Medo. |
| | Quinta-feira, Setembro 20j | |
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Alfredo Sem Medo: Parte Um
Alfredo considera-se um rapazola normal. Nem gordo nem magro, normal. Nem preto nem branco, normal. Normalmente tranquilo, ele só irrita-se em situações em que seria normal ficar irritado. Alfredo é fanático por cartões raros de RPG, e acha normal passar quinze horas das dezesseis que fica acordado embaralhando sua coleção ou contemplando a vitrine da loja de cartões raros de RPG próxima de sua casa. Normalmente, às quartas-feiras, Alfredo só sai da loja às dezesseis horas, porque precisa estar na UTFPR, que ele orgulhosamente prefere ainda chamar de CEFET, para assistir à aula do Magrão, seu professor de Cálculo Complicado 2. Alfredo faz Mecatrônica e sonha em criar um robô do Jaspion em tamanho real.
Mas hoje Alfredo percebeu uma mudança estranha na sua rotina normal de sobrevivência. Ele caminhava pela rua, logo após ter saído da loja de cartões raros de RPG, em direção ao lugar em que sentaria-se em uma cadeira de fórmica verde para assistir Magrão desembuchar números e cálculos complicados. Repassava mentalmente cada um de seus novecentos e quarenta e seis cartões de RPG e deliciava-se com os detalhes dos mais raros. Hoje ele pensava especialmente nos poderes de água do cartão do Mago. Como normalmente sempre faz. Passou todo o caminho até aqui pensando tudo o que foi escrito neste texto. Aliás, seria normal concluir que todo este texto saiu da cabeça cabeluda de Alfredo. Inclusive seria normal acreditar que Alfredo também pensava que seus pensamentos eram normalmente controlados por alguma entidade estranha. Alfredo também sofria de lapsos de memória, mas como já estava acostumado com eles, achava tudo muito normal.
Talvez tenha sido mais um longo lapso que levou Alfredo até este momento. Sabe-se que ele caminhava despreocupado, até o instante em que preocupou-se com a escuridão à sua volta. Alfredo despertou de seu catálogo de cartões raros de RPG e passou-lhe imediatamente pela cabeça que o pôr-do-sol não ocorre normalmente antes das dezesseis e trinta, quando, às quartas-feiras, já encontra-se normalmente acomodado entre seus colegas com óculos sobre o nariz e espinhas generosas avançando-lhes pela cara. Antes que Alfredo usasse a menor parte de seu cérebro, a única que lhe oferecia certa utilidade em situações inesperadas, para procurar uma solução para o enigma, ele levantou o olhar, evidentemente para certificar-se de que a escuridão não ocupava apenas a calçada em que pisava, mas também toda a rua que deveria atravessar.
Qual não foi a surpresa de Alfredo quando acometeu-lhe a revelação fatal de que estava nada mais nada menos do que em algum lugar qualquer do centro da cidade. Alfredo vislumbrou, em questão de milésimos de segundo, paredes uniformes que indicavam os muros de uma fábrica abandonada. Árvores gigantescas, paradas como estúpidos cavaleiros medievais de braços levantados. Musgos verdes invadindo-lhes pela armadura de madeira. Alfredo apertou os olhos para enxergar o nome da rua na esquina, quando, sem perceber, a menos de dez passos encontrava-se alguém que o observava tão interessado em Alfredo quanto Alfredo pela placa de rua.
Alfredo percebeu o olhar inquisitivo, focou os olhos e percebeu uma loura, alta, de salto alto e saia muito pequena. Olhando bem, Alfredo percebeu que os cabelos eram secos, desgrenhados, o peito era peludo e a cara. Oh meu Deus! A cara do Seu Madruga! Uma vertigem acometeu Alfredo. O travesti, talvez acreditando que o esgar de horror que rasgava a cara de Alfredo naquele momento significava algum tipo de interesse, abordou-lhe da seguinte maneira: "Gostoso. Te dou o cu de graça."
Atordoado e chocado, Alfredo preocupou-se em trair as emoções: "Não te fodo nem se me pagasse."
A bicha, talvez acreditando que pela bravata acabara-se de estabelecer alguma espécie de diálogo improvisado, emendou com ar sagaz: "Então eu pago cem paus para você me foder."
Numa fração de segundos, Alfredo viu todas as suas aulas do CEFET passarem diante de seus olhos. Todos os encontros com colecionadores de cartas raras de RPG. Todas as quinze horas que passaria naquele dia examinando o corte perfeito do molde das suas cartas preferidas. Alfredo tinha uma reputação a preservar. Sua vida dependia disso. Orgulhoso de nunca perder tanto uma disputa de RPG quanto uma conversa com um travesti na rua, Alfredo não hesitou. Hoje Alfredo teria uma história a contar para seus colegas de jogo. Hoje Alfredo sairia mais uma vez vencedor. Hoje, afinal, Alfredo descobriria com quantos paus se faz uma canoa. Alfredo olhou para o Seu Madruga, estufou o peito fraco e impotente e falou com a maior dureza que a sua voz desafinada pôde permitir. Alfredo negou-lhe a oferta.
Mais tarde, descobrindo o rumo de casa, Alfredo dispôs no chão de seu quarto, em vinte e sete colunas e trinta e cinco linhas, todos os seus cartões. Manteve os raros que sobraram nas mãos. Admirou-lhes o corte preciso, a espessura maravilhosa e o alto valor dos poderes do Mago, apresentados em uma letra dourada de extremo bom gosto. Emocionado, Alfredo colocou a carta do Mago novamente em seu pedestal. Alfredo, como normalmente faz quando contempla a carta do Mago em seu pedestal, recostou-se na parede com as mãos nos bolsos, absorto com a preciosidade que tinha diante dos olhos. Normalmente Alfredo satisfaz-se com esta posição, mantendo-a por horas através das longas madrugadas. Mas desta vez e sem qualquer real motivação, Alfredo decidiu investigar os bolsos enquanto vigiava o pedestal com a carta sagrada. Foi então que Alfredo descobriu as notas de papel amassado que mudariam a sua vida. Ao todo, eram vinte e sete notas dos mais variados valores, que Alfredo depois veio a descobrir que somavam precisamente cem reais. |
| | Quinta-feira, Setembro 13j | |
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Brasil: A Dinastia dos Imbecis
A imprensa do Brasil é vergonhosa. Hipócrita. Medíocre. A imprensa fantasia a democracia sob o manto da imparcialidade. O tipo do argumento ridículo que não deveria, já em primeira instância, ser utilizado pela própria mídia de massa. A opinião tem que ser, sim, parcial. Tem que defender uma ideologia. Apologizar valores tradicionais. Destruir valores tradicionais. Xingar o presidente e defender o mesmo homem. O que não pode é sugerir a imparcialidade através de divulgação rasteira das informações em todos os meios. O predomínio da ignorância. A dinastia dos imbecis.
Qualquer jornal arroga-se defensor de uma postura séria quando permite "liberdade de expressão" de um colunista malicioso. O que dizer de um Arnaldo Jabor, do Simão, de Diogo Mainardi ou de qualquer outro genial malabarista de palavras? Ou deveremos louvar a brilhante ignorância de um Ricardo Chab quando ele aponta, sem papas na língua (mas muitas no pescoço), a negligência do prefeito? Duvido que algum meio de comunicação, por acaso, vá gastar hoje mais do seu espaço entre os comerciais com a absurda absolvição de Renan Calheiros do que com o Brasil x México de ontem. Aliás, quanto deu o jogo?
Não sou pessimista. Acredito num futuro glorioso para o meu país. Acredito que um dia os brasileiros irão compartilhar algum interesse comum mesmo fora da Copa do Mundo. Hoje, me sinto tão indiferente para um baiano quanto para um iugoslavo. São pessoas, e só. Não admiro o presidente, nem qualquer político, não me importo com a criminalidade do Rio tanto quanto não estou nem aí para a vida do meu vizinho. Somos todos brasileiros simplesmente porque nascemos no mesmo chão. Esse é o único fiapo que enlaça todo esse mundo de gente brasileira.
É um processo global, acredito, principalmente nos países de terceiro mundo, a decadência da educação e a ascenção da mídia como meio de dominação de um povo. Uma vez que em tempos modernos os aparelhos opressores são aplicados apenas em casos extremos e com muita cautela, os aparelhos ideológicos têm que fazer sozinhos a função de controle de toda a raça. Aí temos as superpoderosas Rede Globo, SBT e Record, para ficar só nas de TV, que não são apenas as mais populares como também as mais poderosas organizações de mídia e controle do Brasil.
O povo pode, é claro, fazer algo sozinho, e aqui faço a minha especulação científica política. Mas não hoje. Não agora. Em geral, todos estão cagando e andando para o maldito Calheiros. Foda-se se ele rouba. Foda-se se foi absolvido. "O Brasil é assim mesmo", "político é tudo corrupto" é o bordão que matraqueia na boca das pessoas. Muitas delas que nem sabem quem é esse sujeito. A dinastia dos imbecis é fruto da era da indiferença. Do total controle e da submissão humilhante. Os brasileiros parecem tão satisfeitos com uma esmola do governo quanto indignados com um ônibus lotado. Enfim, se não for um parente seu que morreu na fila de um posto de saúde, o máximo que se pode ouvir de uma boca qualquer é um resignado "esse país é uma merda mesmo".
Afinal, quem é esse país? Quem é o Brasil? O Brasil não é uma extensão de terra. Não são formas coloridas numa bandeira. Não é uma dúzia de moleques correndo atrás de uma bola. O Brasil somos nós, brasileiros.
Reconheço os problemas históricos do Brasil. Anos de submissão à Portugal. As chacinas de índios, os únicos cidadãos legitimamente brasileiros desta terra. Negros espólios de tempos de escravatura hedionda. Ditaduras assoladoras. Corrupção infinita. Por causa disso tudo e algo mais não posso apontar o dedo na cara de qualquer brasileiro na rua e acusar "você é culpado de tudo de ruim neste país". Até porque me sentiria um justiceiro ridículo nesta situação.
Mas me perdoem os que fizeram quatro anos de faculdade e leram muitos livros sobre ciência política, a minha opinião é que a situação de hoje não tem solução hoje. Vai levar anos para isso tudo mudar. Não muitos, se comparado aos quinhentos que já passaram, mas o suficiente para a minha geração inútil deixar de influenciar este Brasil.
Não importa se na França, em Israel ou no Brasil, sempre foram os jovens e estudantes que se manifestaram contra ou a favor de alguma coisa. Enquanto que os mais velhos acomodam-se no conforto da impotência consciente, os jovens temerários são absorvidos pela utopia da revolução e pela ilusão de um futuro diferente. Hoje, no meu país, essas pessoas que deveriam estar grudando lambes de protesto, urrando palavras de ordem e marchando na frente dos palácios do Estado está imersa em uma existência indiferente e sem propósito. Sem consciência de que é a maioria e que, justamente por isso, conseguir alguma mudança é muito mais fácil do que parece.
A manifestação mais representativa atualmente é o Cansei da OAB e uns outros órgãos. E o protesto mais revolucionário que eles conseguiram foi em agosto, quando propuseram pela mídia que à uma hora da tarde os brasileiros ficassem de braços cruzados por um minuto.
Mas como assim? Jesus, o Brasil não precisa de mais pessoas de braços cruzados. Por acaso é justamente contra isso que deveria-se estar protestando. |
| | Segunda-feira, Setembro 3j | |
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Sem título
Não sei o nome do cientista, mas sei que ele existiu. Ele afirmou que todas as afirmações que poderiam ser feitas ao movimento dos corpos celestes também poderiam ser admitidas para os corpos atômicos, ou subatômicos. Na verdade é a ciência carimbando embaixo do texto que escrevi algum tempo atrás, sobre as coisas serem relativas e que o homem cria medidas pela percepção média das coisas e tal. O assunto é chato, já o tratei anteriormente, e por isso vou limitá-lo a este parágrafo.
O fato relevante para este post, e que vou apresentá-lo já no começo do segundo parágrafo antes que você desista de lê-lo e procure algo interessante na TV, é: o nosso corpo é composto por mais de 70% de água.
E daí?
E daí que o nosso planeta também. E se não me arrisco a temerariamente afirmar que é exatamente a mesma, afirmo que ele tem quase a mesma proporção que o nosso corpo desse mesmo líquido.
E daí?
E daí que nós somos água. Fato. Se você perde água, você perde um pouco de você. Você toma água, e você ganha mais você.
Mas, e daí?
Daí que acho que por causa do frio, tenho bebido menos água. Por causa do frio o ar fica menos úmido, e respiro menos água. E por causa do frio, me agasalho tanto que fico com calor a maior parte do dia. Transpiro água e fico fedendo sovaco.
Hum... e daí?
Daí que sendo menos eu, perco um pouco da personalidade. Falo menos, penso menos, dou menos risada, e fico menos interessado em descobrir o porquê. Daí, de repente, chove. Molho meu cabelo, dou umas lambidas nas gotas que grudaram perto da minha boca. O mijo dos anjos. A chuva é formada quando São Pedro e os anjos mijam na gente. Eles dizem assim: vamos mijar nesses filhos da puta para aprenderem! E eu, esperando o ônibus para ir ao trabalho, bebo umas gotas desse sagrado elixir. Acabo ficando mais eu. Penso um pouco e decido inventar uma teoria com o pouco de criatividade que o mijo angelical me proporciona.
Ah...
Encho um copo de polietileno barato com a sagrada água Ouro Fino e bebo. Bebo como um camelo. Um puto. Um neném mamando na teta. Recobro a inteligência, a astúcia. Cresço, me desenvolvo. Minha cabeça começa a funcionar novamente. O ciclo da água se faz dentro de mim. Do copo à pica. Sou novamente eu mesmo. No fervor da felicidade incontida estravaso um rio de bobagens pelos dedos. E publico. |
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³[smashing pumpkins - zeitgeist]
Zeitgeist e as Abóboras Esmagadas
Últimos dias agitados no departamento de lançamentos de cds. Tem aí a Volta da Björk, Zero Hour do Nine Inch Nails, a ressurreição barulhenta do Smashing Pumkpkins e o excelente Era Vulgaris do Josh Homme, vulgo Queens of the Stone Age. Gostaria de ter todos, e escrever de todos, mas me parece mais urgente falar alguma bobagem sobre o do Pumpkins. E assim será.
Quem esperava mais do mesmo vai se decepcionar. O Pumpkins romântico e melancólico deu lugar a um som pesado e politizado. Meio chato nesse aspecto, principalmente pra quem, como eu, faz vista grossa para a moda de criticar o capitalismo, os EUA e essas guerras malucas no oriente médio. Na verdade, deixando o tema das músicas de lado, o que salta à vista é a agressividade do novo som. Coisa ouvida apenas em algumas músicas polvilhadas parcimonicamente nos álbuns antigos, nesse daqui é coisa constante. Quem curte as clássicas XYU, Bullet With Butterfly Wings e The Everlasting Gaze vai ficar de cara com os primeiros acordes que ouvir desse Zeitgeist. Mas quem gostava mesmo era da mistura bem temperada dos cds antigos vai sentir falta de alguma coisa que soe como Today, Disarm ou 1979.
Essa particularidade do cd é, na minha visão (e aqui eu já abro espaço para a primeira teoria do dia), devida à falta das duas abóboras românticas do grupo. Num rápido retrospecto é fácil identificar que Jimmy Chamberlain é a alma do som pesado do Pumpkins. E quando só fica ele e Billy Corgan para gravar um som da banda, é só isso o que a gente ouve no cd.
Considero os dois primeiros álbuns da banda como um aquecimento. As idéias se formando, o produtor (Butch Vig, batera do Garbage) azucrinando o grupo e a pouca fama ainda engessando a criação do quarteto. Claro que Gish e Siamese Dream são álbuns ótimos, mas acredito mais na experimentação nestes cds do que a concretização da maturidade da banda. Essa maturidade vem com a obra-prima de 1995 Mellon Collie and the Infinite Sadness. A partir daí sai um, entra outro, e cada álbum seguinte só ajuda a perceber quão incompleto fica o som do grupo sem a presença de todos os quatro.
Em 1998 sai Adore, e antes dele a banda abandona Jimmy Chamberlain, enterrado em drogas depois da turnê de Mellon Collie. A substituição de Chamberlain pela bateria eletrônica deu aspecto industrial ao som, que se percebe tanto nas famosas Ava Adore e Perfect quando nas baladinhas obscuras do cd. Confesso que prefiro um ser humano com baquetas na mão. Na verdade, a grande mudança do som nem se limita ao uso do eletrônico, mas sim no romantismo sufocante. Sem Chamberlain a banda perdeu peso e James Iha e D'Arcy esbanjaram acordes fofinhos e batidas lentas.
O álbum não foi muito bem recebido e dois anos depois o grupo volta a estúdio, sendo que antes disso Chamberlain larga as drogas e volta a segurar as baquetas das abóboras. Porém, dessa vez, quem sai é D'Arcy, alegando razões pessoais. Melissa Auf Der Maur do, na época, recém terminado Hole entra para substituí-la. Mesmo sendo também mulher (aspecto que considero indispensável no som áureo do Pumpkins), Melissa não entra para manter o pé romântico do grupo, que grava em 2000 Machina: The Machines of God. A insistência do uso de eletrônicos e a entrada da nova integrante resulta num álbum desequilibrado, e arrisco a dizer: um pouco entediante. Talvez as divergências entre a guitarra intimista de Iha, agora sozinha sem D'Arcy, e o peso estrondoso da bateria de Chamberlain, resurgido e com muito fôlego, tivessem provocado, além de outras adversidades, aquilo que todos não queriam: ao término da turnê de Machina o grupo anuncia o seu fim, apesar das insistentes afirmações do confuso Billy Corgan, que queria continuar.
A partir daí os integrantes seguem trabalho solo. Iha faz participações em diversas bandas e entra para o A Perfect Circle. Corgan e Chamberlain, que parecem ter mais afinidade, decidem criar sua própria banda e surge daí o Zwan. Projeto fraco, sem música relevante e de forte apelo comercial. O projeto morre logo após o lançamento do fracassado único álbum. Começam a surgir rumores de uma possível volta do Pumpkins, confirmada tempo depois por Billy Corgan. E agora, este mês, você pode encontrar na prateleira de lançamentos o novíssimo Zeitgeist, com a Estátua da Liberdade afundando num mar de sangue. Por aí já dá pra perceber que as abóboras não são mais as mesmas.
Agora sem D'Arcy e também sem James Iha, que decidiram não tentar desfibrilar o som antigo da banda, Corgan e Chamberlain impuseram um peso sem precedentes. Músicas bem construídas mas que mesmo com o monte de ruídos não conseguem preencher o vazio imposto pela falta de metade do grupo. A banda abre mão do intimismo, que segundo minha outra teoria era imposta por Iha e D'arcy, e faz rock'n'roll no sentido mais pesado da palavra. Sem amores e desilusões para falar, focar no contexto político foi a saída fácil para o novo Pumpkins. Falar de política, no caso do esquizofrênico Corgan e do mudo Chamberlain, foi antes uma busca de assunto para canalizar o som latente dos dois do que uma jogada comercial. Eu acho. No fim acaba sobrando a insólita verdade de que com poucas abóboras o som do Smashing Pumpkins não é mais tão esmagador. |
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¯[café del mar - volumen cinco]
Matemática Mitológica
Posso afirmar que todos, senão quase todos os professores de matemática que já tive eram psicóticos. Maníacos que babavam números e afirmavam categoricamente que matemática era uma maravilha, que os números isso e aquilo. Tudo acompanhado de um tom profético e um olhar distante no horizonte branco ou bege das salas de aula.
Teve um japonês da faculdade, o meu último contato com a estirpe, que dizia marrentamente que "tudo era estatística". Um sujeito que, não duvido, brilhante, desperdiçou muita palavra em adoração a uma coisa boba. A mera constatação da natureza. A relação causa-efeito que até os macacos, ou os cãezinhos lá do Pavlov aprendem sem pensar um pouquinho.
Cheguei à conclusão que se existe alguma utilizade prática das matemáticas no descobrimento de alguma verdade sobre a Vida, o Universo e Todo o Mais, ela já foi descoberta, enunciada e é, creio eu, uma das frases mais famosas da ciência. Einstein disse que "tudo é relativo".
Matemática, a lógica, é só isso. A simples constatação da relação de uma coisa com a outra. Tudo o que existe de solidamente - reforço, absolutamente - estabelecido nos números são convenções arbitrárias.
Tem um museu em Paris que quem quiser pode ir lá conferir o Metro. Digo, uma vara de madeira mordiscada pelo tempo que diz embaixo alguma coisa que pode se resumir a: "aqui jaz o Metro, e a partir de hoje tudo o que tiver essa medida será chamado de 'metro'". Isso é o que sei, mas creio que deve haver também um vasilhame bacana com coisa líquida ou sólida dentro dizendo numa plaquinha: "e esse daqui, meu camarada, esse daqui é o Litro, e a partir de hoje..." o resto já dá pra deduzir. Por aí já dá pra imaginar as plaquinhas sob o Joule, o Quilo, o Mol, a Atmosfera, o Watt e o resto da turma.
Me falta a memória neste momento, mas li sobre um pré-socrático que afirmou que "o homem é a medida de todas as coisas". Dois mil anos de religião, ciência, filosofia, arte, drogas e um pouco de sorte depois, Albert, como disse, falou que "tudo é relativo". Mas é claro, Albert!, fica fácil porque o cara lá Grécia já tinha dito isso, só que de outra forma. Uma coisa é o que o Homem percebe - permitam-me o H maiúsculo para esta frase - e outra coisa diferente é o que a Vida, o Universo e Todo o Mais realmente são.
Quem disse que os trilhões de anos-luz que nos separam de uma qualquer coisa que a NASA observa no espaço não é percebida como a mesma distância que separa o dedo do buraco do meu nariz por um sujeiro, ou consciência, ou percepção mais ampla? Uma razão maior. Isso não tem nada a ver com Deus, falo de consciências como as que temos. É a mesma coisa que supor que lá no minúsculo pedaço de matéria que já se conseguiu medir, e que deve ser formado por mais infinitas divisões, também podem haver formas de vida conscientes de si, mas não de que fazer parte de algo maior.
Isso não é devaneio barato. Pois, como disse, o homem convencionou suas medidas, que são arbitrárias e correspondem somente ao nível médio de percepção que ele tem do tempo e do espaço.
E, antes de finalizar, deixo claro que esta opinião nada tem a ver com visão holística, muito pelo contrário. A tal da visão holística que se tem hoje é extremamente limitada: ou a um corpo humano, ou a um grupo de pessoas ou ao sustento do planeta Terra. Não passa de mais um mito, uma determinação arbitrária definindo os limites lógicos de alguma coisa. |
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Freud não explica: a interpretação dos sonhos depende da experiência pessoal de cada um. |
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(arte é) FORMA DE EXPRESSÃO
O sonho é uma obra de arte
Arte da memória
Ciência é a arte do conhecimento
Memória e conhecimento são a razão, tal como os cinco sentidos são emoção
Você não ouve a cor, não vê os números, não cheira o som
Razão e emoção são apenas formas de expressão
Retificação: aqui eu admito que, em texto anterior, empreguei a palavra "razão" de forma inadequada. |
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A Pirâmide
Cai a noite, cai a pira,
Caga na moita o curupira
Que pira louca a minha pira
Suspira em pira, a pira-pira
Samira mira, olha a safira
O Sucupira pira pirando a tira
Jandira puta pura barriga
Esperou com a bunda olhando a pica
Inspira a pira ou pira sem pira
Com caipira bobo não fala o Bira
Com falo mudo berra o caipira
Que no lero-lero não fica a lira
depois do verso e da vasilina
Oh! que saudades de minha pira
O mundo gira pela vagina
A xota suja feita na China
Socega a rua quando transpira
Transporta a morta que entorta a pira
Pára com a pêra que é pura pira
Falta ferida fodendo a fita
Fita ferida faltou fodida
Fala feio do falo fino
Agrada o tolo de fala fina
De fino falo fingiu a finta
Afina a fala, é o fim da pira.
Ainda falta falar da fila
Que fode a fina fileira fina
Com pira a fita conspira a pipa
Enfim termina se constirpa a pira. |
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O Sexto Sentido
³[pink floyd - the dark side of the moon]
Filosofia é arte
O ato da arte é um ato filosófico
Fato
Pinto, canto, danço, penso
Fato
Tato, sinto, cheiro, vejo
Olfato, o fato
Penso, lembro, desejo
O fato |
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¯[groove armada - in my bones]
O Mágico e O Palhaço
Não há divisão estanque entre a razão e os sentidos.
Isto, porque a razão é apenas um dos nossos sentidos.
Nosso sexto sentido.
Penso, logo existo. Sinto, e continuo existindo.
A filosofia ocidental é marcada por um longo ciclo de estupidez. Vácuo que separa Sócrates de Hume. A meu ver, duas cabeças que pensavam da mesma forma.
O trio grego é fundamentalmente a síntese da filosofia miserável deste lado do mundo. Sócrates, o empírico. Platão, o racionalista. E Aristóteles, o materialista. Misturando os três dá pra fazer qualquer livro chato de filosofia, embora o mais correto e o pioneiro deles seja o último a aparecer como o mais sábio. Não há dúvidas de que só sabemos das coisas conhecendo elas. E é só isso o que ele dizia.
Platão chutou para o alto e inventou a distinção entre razão e sentidos que viciou toda filosofia e teologia que conhecemos. Por causa dessa "pequena" intuição, muitos acreditariam na separação de corpo e alma, matéria e espírito, Deus e homem, bem e mal, certo e errado, e qualquer dicotomia que alguém precisasse inventar. Com ele aprendeu Aristóteles, que seguindo o dogmatismo de Platão criou as bases da ciência de hoje. Dele veio a História, a Biologia e tudo que de vão se pode pesquisar. Daí Maquiavel, Hegel, Marx, Adorno e a escola de Frankfurt.
Se Platão pensava para a alma, Aristóteles pensava para o corpo. Apenas Sócrates teve a humildade de duvidar de que talvez nem houvesse "alma" ou "corpo" para se pensar. Contrariamente a ele, temos dois mil anos de especulação oca sobre um princípio indubitavelmente incomprovável. Seja ele qual for.
¯[groove armada - inside my mind (blue skies)] |
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