Brasil: A Dinastia dos Imbecis
A imprensa do Brasil é vergonhosa. Hipócrita. Medíocre. A imprensa fantasia a democracia sob o manto da imparcialidade. O tipo do argumento ridículo que não deveria, já em primeira instância, ser utilizado pela própria mídia de massa. A opinião tem que ser, sim, parcial. Tem que defender uma ideologia. Apologizar valores tradicionais. Destruir valores tradicionais. Xingar o presidente e defender o mesmo homem. O que não pode é sugerir a imparcialidade através de divulgação rasteira das informações em todos os meios. O predomínio da ignorância. A dinastia dos imbecis.
Qualquer jornal arroga-se defensor de uma postura séria quando permite "liberdade de expressão" de um colunista malicioso. O que dizer de um Arnaldo Jabor, do Simão, de Diogo Mainardi ou de qualquer outro genial malabarista de palavras? Ou deveremos louvar a brilhante ignorância de um Ricardo Chab quando ele aponta, sem papas na língua (mas muitas no pescoço), a negligência do prefeito? Duvido que algum meio de comunicação, por acaso, vá gastar hoje mais do seu espaço entre os comerciais com a absurda absolvição de Renan Calheiros do que com o Brasil x México de ontem. Aliás, quanto deu o jogo?
Não sou pessimista. Acredito num futuro glorioso para o meu país. Acredito que um dia os brasileiros irão compartilhar algum interesse comum mesmo fora da Copa do Mundo. Hoje, me sinto tão indiferente para um baiano quanto para um iugoslavo. São pessoas, e só. Não admiro o presidente, nem qualquer político, não me importo com a criminalidade do Rio tanto quanto não estou nem aí para a vida do meu vizinho. Somos todos brasileiros simplesmente porque nascemos no mesmo chão. Esse é o único fiapo que enlaça todo esse mundo de gente brasileira.
É um processo global, acredito, principalmente nos países de terceiro mundo, a decadência da educação e a ascenção da mídia como meio de dominação de um povo. Uma vez que em tempos modernos os aparelhos opressores são aplicados apenas em casos extremos e com muita cautela, os aparelhos ideológicos têm que fazer sozinhos a função de controle de toda a raça. Aí temos as superpoderosas Rede Globo, SBT e Record, para ficar só nas de TV, que não são apenas as mais populares como também as mais poderosas organizações de mídia e controle do Brasil.
O povo pode, é claro, fazer algo sozinho, e aqui faço a minha especulação científica política. Mas não hoje. Não agora. Em geral, todos estão cagando e andando para o maldito Calheiros. Foda-se se ele rouba. Foda-se se foi absolvido. "O Brasil é assim mesmo", "político é tudo corrupto" é o bordão que matraqueia na boca das pessoas. Muitas delas que nem sabem quem é esse sujeito. A dinastia dos imbecis é fruto da era da indiferença. Do total controle e da submissão humilhante. Os brasileiros parecem tão satisfeitos com uma esmola do governo quanto indignados com um ônibus lotado. Enfim, se não for um parente seu que morreu na fila de um posto de saúde, o máximo que se pode ouvir de uma boca qualquer é um resignado "esse país é uma merda mesmo".
Afinal, quem é esse país? Quem é o Brasil? O Brasil não é uma extensão de terra. Não são formas coloridas numa bandeira. Não é uma dúzia de moleques correndo atrás de uma bola. O Brasil somos nós, brasileiros.
Reconheço os problemas históricos do Brasil. Anos de submissão à Portugal. As chacinas de índios, os únicos cidadãos legitimamente brasileiros desta terra. Negros espólios de tempos de escravatura hedionda. Ditaduras assoladoras. Corrupção infinita. Por causa disso tudo e algo mais não posso apontar o dedo na cara de qualquer brasileiro na rua e acusar "você é culpado de tudo de ruim neste país". Até porque me sentiria um justiceiro ridículo nesta situação.
Mas me perdoem os que fizeram quatro anos de faculdade e leram muitos livros sobre ciência política, a minha opinião é que a situação de hoje não tem solução hoje. Vai levar anos para isso tudo mudar. Não muitos, se comparado aos quinhentos que já passaram, mas o suficiente para a minha geração inútil deixar de influenciar este Brasil.
Não importa se na França, em Israel ou no Brasil, sempre foram os jovens e estudantes que se manifestaram contra ou a favor de alguma coisa. Enquanto que os mais velhos acomodam-se no conforto da impotência consciente, os jovens temerários são absorvidos pela utopia da revolução e pela ilusão de um futuro diferente. Hoje, no meu país, essas pessoas que deveriam estar grudando lambes de protesto, urrando palavras de ordem e marchando na frente dos palácios do Estado está imersa em uma existência indiferente e sem propósito. Sem consciência de que é a maioria e que, justamente por isso, conseguir alguma mudança é muito mais fácil do que parece.
A manifestação mais representativa atualmente é o Cansei da OAB e uns outros órgãos. E o protesto mais revolucionário que eles conseguiram foi em agosto, quando propuseram pela mídia que à uma hora da tarde os brasileiros ficassem de braços cruzados por um minuto.
Mas como assim? Jesus, o Brasil não precisa de mais pessoas de braços cruzados. Por acaso é justamente contra isso que deveria-se estar protestando. |