Alfredo Sem Medo: Parte Um
Alfredo considera-se um rapazola normal. Nem gordo nem magro, normal. Nem preto nem branco, normal. Normalmente tranquilo, ele só irrita-se em situações em que seria normal ficar irritado. Alfredo é fanático por cartões raros de RPG, e acha normal passar quinze horas das dezesseis que fica acordado embaralhando sua coleção ou contemplando a vitrine da loja de cartões raros de RPG próxima de sua casa. Normalmente, às quartas-feiras, Alfredo só sai da loja às dezesseis horas, porque precisa estar na UTFPR, que ele orgulhosamente prefere ainda chamar de CEFET, para assistir à aula do Magrão, seu professor de Cálculo Complicado 2. Alfredo faz Mecatrônica e sonha em criar um robô do Jaspion em tamanho real.
Mas hoje Alfredo percebeu uma mudança estranha na sua rotina normal de sobrevivência. Ele caminhava pela rua, logo após ter saído da loja de cartões raros de RPG, em direção ao lugar em que sentaria-se em uma cadeira de fórmica verde para assistir Magrão desembuchar números e cálculos complicados. Repassava mentalmente cada um de seus novecentos e quarenta e seis cartões de RPG e deliciava-se com os detalhes dos mais raros. Hoje ele pensava especialmente nos poderes de água do cartão do Mago. Como normalmente sempre faz. Passou todo o caminho até aqui pensando tudo o que foi escrito neste texto. Aliás, seria normal concluir que todo este texto saiu da cabeça cabeluda de Alfredo. Inclusive seria normal acreditar que Alfredo também pensava que seus pensamentos eram normalmente controlados por alguma entidade estranha. Alfredo também sofria de lapsos de memória, mas como já estava acostumado com eles, achava tudo muito normal.
Talvez tenha sido mais um longo lapso que levou Alfredo até este momento. Sabe-se que ele caminhava despreocupado, até o instante em que preocupou-se com a escuridão à sua volta. Alfredo despertou de seu catálogo de cartões raros de RPG e passou-lhe imediatamente pela cabeça que o pôr-do-sol não ocorre normalmente antes das dezesseis e trinta, quando, às quartas-feiras, já encontra-se normalmente acomodado entre seus colegas com óculos sobre o nariz e espinhas generosas avançando-lhes pela cara. Antes que Alfredo usasse a menor parte de seu cérebro, a única que lhe oferecia certa utilidade em situações inesperadas, para procurar uma solução para o enigma, ele levantou o olhar, evidentemente para certificar-se de que a escuridão não ocupava apenas a calçada em que pisava, mas também toda a rua que deveria atravessar.
Qual não foi a surpresa de Alfredo quando acometeu-lhe a revelação fatal de que estava nada mais nada menos do que em algum lugar qualquer do centro da cidade. Alfredo vislumbrou, em questão de milésimos de segundo, paredes uniformes que indicavam os muros de uma fábrica abandonada. Árvores gigantescas, paradas como estúpidos cavaleiros medievais de braços levantados. Musgos verdes invadindo-lhes pela armadura de madeira. Alfredo apertou os olhos para enxergar o nome da rua na esquina, quando, sem perceber, a menos de dez passos encontrava-se alguém que o observava tão interessado em Alfredo quanto Alfredo pela placa de rua.
Alfredo percebeu o olhar inquisitivo, focou os olhos e percebeu uma loura, alta, de salto alto e saia muito pequena. Olhando bem, Alfredo percebeu que os cabelos eram secos, desgrenhados, o peito era peludo e a cara. Oh meu Deus! A cara do Seu Madruga! Uma vertigem acometeu Alfredo. O travesti, talvez acreditando que o esgar de horror que rasgava a cara de Alfredo naquele momento significava algum tipo de interesse, abordou-lhe da seguinte maneira: "Gostoso. Te dou o cu de graça."
Atordoado e chocado, Alfredo preocupou-se em trair as emoções: "Não te fodo nem se me pagasse."
A bicha, talvez acreditando que pela bravata acabara-se de estabelecer alguma espécie de diálogo improvisado, emendou com ar sagaz: "Então eu pago cem paus para você me foder."
Numa fração de segundos, Alfredo viu todas as suas aulas do CEFET passarem diante de seus olhos. Todos os encontros com colecionadores de cartas raras de RPG. Todas as quinze horas que passaria naquele dia examinando o corte perfeito do molde das suas cartas preferidas. Alfredo tinha uma reputação a preservar. Sua vida dependia disso. Orgulhoso de nunca perder tanto uma disputa de RPG quanto uma conversa com um travesti na rua, Alfredo não hesitou. Hoje Alfredo teria uma história a contar para seus colegas de jogo. Hoje Alfredo sairia mais uma vez vencedor. Hoje, afinal, Alfredo descobriria com quantos paus se faz uma canoa. Alfredo olhou para o Seu Madruga, estufou o peito fraco e impotente e falou com a maior dureza que a sua voz desafinada pôde permitir. Alfredo negou-lhe a oferta.
Mais tarde, descobrindo o rumo de casa, Alfredo dispôs no chão de seu quarto, em vinte e sete colunas e trinta e cinco linhas, todos os seus cartões. Manteve os raros que sobraram nas mãos. Admirou-lhes o corte preciso, a espessura maravilhosa e o alto valor dos poderes do Mago, apresentados em uma letra dourada de extremo bom gosto. Emocionado, Alfredo colocou a carta do Mago novamente em seu pedestal. Alfredo, como normalmente faz quando contempla a carta do Mago em seu pedestal, recostou-se na parede com as mãos nos bolsos, absorto com a preciosidade que tinha diante dos olhos. Normalmente Alfredo satisfaz-se com esta posição, mantendo-a por horas através das longas madrugadas. Mas desta vez e sem qualquer real motivação, Alfredo decidiu investigar os bolsos enquanto vigiava o pedestal com a carta sagrada. Foi então que Alfredo descobriu as notas de papel amassado que mudariam a sua vida. Ao todo, eram vinte e sete notas dos mais variados valores, que Alfredo depois veio a descobrir que somavam precisamente cem reais. |