Alfredo Sem Medo: Parte Dois
Embriagado pelo intenso chacoalhar do Colombo-CIC, Alfredo meditava a respeito de seu maior inimigo: a morosidade do sistema público de ensino. No início da primavera, Alfredo - ou O Mago, como gosta de ser reconhecido - havia defendido o seu projeto de estudos frente à banca de sábios anciãos do CEFET. Um projeto que previa revolucionar o mundo da tecnologia mecatrônica.
O Mago agora precisava arrecadar investidores para o projeto da sua vida, enquanto aguardava a decisão solene do sábio Conselho. Primeiramente uma oferenda a Odin. No sábado, o primeiro dia da lua nova, O Mago sacrificou as cartas do Chihuahua, do Pipoqueiro e do Gaiteiro, três de seus grandes aliados nas batalhas semanais com os nerds, digo, os guerreiros de RPG no Diretório de Física da UFPR. Agora ele pretendia, em sua fúria incontrolável, derramar mais do sangue virgem.
Esquizofrênico precoce, Alfredo tem em O Mago o seu mais recente título, motivo de chacota e humilhação no prédio em que vive. Certa vez, quando era Ælfred, fraturou o nariz em defesa da honra. Era o período de entresafra da cevada, cujo suco é mui apreciado em Asgard, o mundo de ilusões de Alfredo. Ele acompanhava uma refeição com alguns conhecidos do seu curso de Mecatrônica, dos quais nenhum deles até aquele momento tolerava insinuações de amizade por parte de Alfredo. Pediu o saboroso X-Montanha, com cinco quilos de gordura e o resto de pêlos do saco e outras imundícies que o cozinheiro chinês decidisse adicionar. Aguardava o sanduíche em meio à névoa do óleo que fritava bolotas de carne há mil anos e apreciava o conforto dos bancos ergonômicos que caiam aos pedaços, quando não deixou de notar o absurdo tamanho dos peitos da Samanta. Esta era a cigana que, de alguma forma, sempre aparecia a Alfredo - ou Ælfred, nesta época - quando este entupia-se de comprimidos entorpecentes.
Iludido pelos seios magistrais, Ælfred mergulhou em profundo estupor, sem dar-se consciência de que contemplava uma mulher de verdade, que realmente chamava-se Samanta e que era malabarista de silaneiro. Ælfred desfez-se de sua mala de lona verde com bordado "Mecatrônica" e escritos incoerentes com corretivo e caneta azul em todos os espaços disponíveis. Ælfred, absorto, desfez-se de sua pochete com carteado completo apto a derrotar qualquer oponente arrogante que lhe cruzasse o caminho. Ælfred também desfez-se de seu sanduíche, uma vez que um sujeito saiu rapidamente de uma penumbra e o abocanhou tão logo o dono partiu hipnotizado em direção aos dois montes de carne macilenta e perfumada de Samanta. E, finalmente, Ælfred desfez-se naquele momento de um nariz naturalmente grande e espinhento para um nariz dobrado e estranhamente deformado para o resto de sua vida.
O que aconteceu, de fato, nem o narrador nem o personagem sabem ao certo. Um breve flash recorda uma bofetada que partiu a cara de Ælfred pela metade. Num outro relance do passado, o personagem encontrava-se fora de uma taberna medieval em um cinzento dia chuvoso de outono em algum lugar ao norte da Escócia discutindo calorosamente com um bravo guerreiro das Terras Nórdicas a respeito de algumas cabras da propriedade do seu Senhor. O guerreiro franzia-lhe a testa com tamanha tenacidade e cuspia com tamanha força as palavras, temperadas com seu mau hálito medieval, que Gandalfredo - que era como Ælfred estava sendo chamado pelo guerreiro - chegou a pensar em dispensar-lhe uma breve demonstração dos poderes sobrenaturais de seu cajado mágico. Ao invés disso Ælfred despertou de seu delírio.
Estava agora em frente a um grande muro, que sugeria uma fábrica abandonada. Atordoado com a novidade, Alfredo lembrou-se que costumava esquecer das coisas. O que era realmente um alívio, pois muitas vezes ele esquecia de lembrar-se de que costumava esquecer-se das coisas. Caminhou vagarosamente ao contorno do muro, apreciando os fios de luz que perfuravam as árvores. Alfredo entreteu-se por alguns segundos imaginando como essas árvores pareciam guerreiros medievais. E antes que ele sequer percebesse os estranhos musgos que lhes invadiam as armaduras de madeira, Alfredo esqueceu-se aonde é que estava, pois passou a ouvir vozes celestiais.
- Você o conhece?
- Quem?
- Eu... infelizmente eu o conheço - vacilou uma terceira voz.
Silêncio. O mundo ficou branco. Alfredo sentiu uma breve vontade de defecar quando tempo depois (três minutos, cinco horas, vinte dias? Ele havia perdido a noção do tempo) novas vozes retumbaram.
- Macacos me mordam, Morgan!
- Não vai ter jeito, ele é feio como o diabo, deixa assim.
- Oh, doutor salve a vida do meu bebê!
Logo o quê, Alfredo despertou com dois seios minúsculos perto dos olhos. Fez um muxoxo e deduziu pela proximidade da coisa que seu nariz havia encurtado. Grudado no bolso do jaleco branco que encobria o seio esquerdo, Alfredo leu "Enfermeira Morgan". E logo que a Enfermeira Morgan sentiu que o paciente lhe babava nos peitos, apressou-se em sedá-lo novamente. Todas estas recordações trouxeram lágrimas aos olhos de Alfredo, que percebeu rictos de asco e sarcasmo nos outros passageiros do ônibus. O ônibus que continuava a chacoalhar insistentemente. E chacoalhava cada vez mais à medida que avançava pelas terras inóspitas de Colombo, ao mesmo tempo que o desespero assomava à cabeça de Alfredo, pois que percebia que já tinha ido ao CIC e que voltava agora para o outro extremo do trajeto. Alfredo calculava que esteve disperso por... talvez duas horas em digressões existencialistas.
O chacoalhar incessante balançava-lhe a comida no estômago e os bagos na cueca. Um mal estar invadia-lhe os intestinos e então brotou a revelação, clara como um raio de luz, de que o trabalho intestinal enfeitiçara-lhe as lembranças passadas. Cansado de lutar contra a sua natureza, O Mago libertou-se das amarras sociais. Abriu mão dos bons costumes e cagou em torrentes bestiais. Um rebosteio potente como um furacão transbordou por todas as janelas. Passageiros gritavam por suas vidas. Luzes de emergência piscavam freneticamente enquanto sirenes berravam o alerta da morte. A merda sufocava a todos e parecia que o mundo inteiro sofreria as consequências de uma diarréia tão furiosa.
Mais tarde, o único sobrevivente da catástrofe contemplava exausto a devastação do ônibus nas terras ermas de Colombo. A partir deste dia, este sobrevivente de nariz dobrado passaria a se chamar Alfredo, O Sem Medo. |