¯[red hot chili peppers - can't stop]
Justiça Cega
Me perdoem os politicamente corretos. Ou não perdoem. Danem-se. Mas tenho esboçado um sorriso de satisfação com a nova onda de notícias que tem ganhado destaque na mídia nacional. Um policial à paisana fuzilou dois assaltantes numa lanhouse no Rio. Seguranças humilhando pichadores de Curitiba. E outras traquinagens mais. O quê, deveria eu ficar assustado com o excesso de violência desses seguranças que sequer deveriam portar armas? Eu não. O cara que levou chumbo não tava fazendo ginástica e nem tava lendo um livro. O vagabundo tava pichando muro.
É um excesso da Lei de Talião. Vá lá. Mas é justiça feita pelas próprias mãos. Tenho medo que motivado por isso muita gente saia por aí atirando em qualquer mané que lhe fechar no trânsito. Mas não me preocupo se um assaltante morrer vítima do próprio crime. Nunca confiei nesse sistema penitencinário que transforma um pichador num assassino. Um usuário de droga em sequestrador. Um moleque vagabundo desses, que sai à noite para pichar os muros da cidade, provavelmente cairia em uma casa de detenção - se não lhe salvassem a pele com serviço comunitário hipócrita - estagiando com criminosos escolados. Talvez participasse de uma rebelião. Talvez fosse estuprado. Talvez apanhasse como um cão e matasse ou morresse. No final, a única certeza é que ele sairia pior do que entrou.
Este sistema correcional é uma merda, mesmo. Ele não serve para corrigir nada. Afinal, pichou, tá pichado. Não sai mais. Matou, tá matado. E por aí vai. Vai ressuscitar o morto se o fulano ficar vinte anos preso por um crime hediondo? Não, não vai. O sistema serve para evitar a reincidência. E que remédio mais eficaz para isso do que matar quem matou? Por isso não acho que um pichador deva morrer pela infração. Mas também acho idiotice pichar a casa dele, como rezaria o "olho por olho, dente por dente". Faz o seguinte, leva num galpão e pinta ele com a própria tinta. Tira sarro, esculacha. E vê depois se o cara vai se arriscar novamente a sair por aí pintando o nome no muro dos outros.
¯[red hot chili peppers - otherside]
A minha intuição masculina me diz que se um puto desses morreu na mão de seguranças malucos daquela forma, ele não foi o primeiro. E pelas notícias que andam pipocando, não vai ser o último. O azar é que esse pichador de bosta era filho de um figurão. E pior, um figurão da mídia. A mesma mídia que logo se apressou em exibir o nome da empresa a torto e a direito (e que talvez, até o dia em que eu postar este texto, já vai ter falido). A mídia que agora trata o crime do segurança como uma tragédia nacional e o crime do pixador como uma atividade inocente. Aliás, daqui a pouco a morte do sujeito vai se tornar tão mítica quanto a morte de Tiradentes. Um mártir. Um olho atento pode perceber que sequer uma vez ele foi chamado de "pichador". Sequer uma vez fizeram uma reportagem falando do problema da pichação e da depredação dos bens públicos. Afinal, foi puro azar ele ter cruzado o caminho dos seguranças malucos?
Me preocupa que os seguranças tenham chegado ao absurdo de tirar uma vida por tão pouco. Deveriam ter ficado na humilhação do galpão. Mas nunca se sabe o que um maluco é capaz com uma arma na mão. Porém isso é um pormenor, um problema pontual. Os problemas verdadeiros, na verdade, são causa e consequência dessas notícias. As causas, como eu já havia apontado ali acima, foi o crime do idiota e a arma na mão do retardado. Daí pelo azar do idiota ser filho de um figura da mídia, o circo foi armado.
O que me preocupa é a reação das pessoas frente a essas notícias. Muita gente que vive garganteando justiça justa (isso não é uma redundância) agora esbugalha os olhos de horror quando houve falar da história. É fácil balançar o dedo e dizer "isso é errado" de fora da situação. Fazer o quê, confiar na polícia? No sistema correcional? Ou talvez no amor da família? O que é que vai corrigir um idiota desses? Aliás, quantos idiotas há desse tipo para serem corrigidos? E quantos idiotas dispostos a cometer um crime surgem a cada dia neste país?
Esse é o tipo de problema em que eu ficaria muito satisfeito em não me importar. Não fazer uma pergunta e nem sequer buscar uma resposta. Mas quando o cheiro da merda chega na minha janela, é impossível não se incomodar. Cogita-se que muitos justiceiros têm surgido desde o fenômeno Tropa de Elite decididos a resolver sumariamente a maioria dos problemas da sociedade. Sou a favor de uma solução sumária. Mas não sou a favor de que essa solução seja criada por cada um que tiver uma arma na mão. Isso é anarquia. E anarquia é uma merda.
¯[sepultura & korn - blinded] |